Aqui vai-se falar da cultura em geral De música e literatura em particular

25
Jan 13

Por norma - corrijam-me se estiver errado - fazer a apresentação de um livro de poesia é, por si só, uma tarefa árdua e díficil na qual com extrema facilidade nos podemos perder em análises supérfluas, fora de contexto ou exíguas de conteúdo, prejudicando não só o livro mas também o autor e criando falsas imagens a quem lê.

Não querendo cair nas armadilhas que atrás mencionei, julgo ser de todo preferível contornar possíveis exames individualizados deste ou daquele poema e centrar a minha atenção no todo, tanto mais que não possuo as credenciais necessárias para uma apresentação mais analítica e aprofundada.

Serve esta minha nota introdutória para explicar a forma que considero mais adequada para expor os meus pontos de vista sobre a poesia que ANA CASANOVA nos oferece neste seu mais recente trabalho.

 

Em NÓS ETERNOS, a poetisa dá continuidade ao que já conhecemos da sua escrita, na certeza de que este é apenas mais um passo no seu crescimento como autora e ciente dos muitos que ainda tem que dar ao longo do seu percurso. Penso não estar a cometer nenhuma heresia se disser que ANA CASANOVA tem, bem enraizado no seu âmago, a perfeita consciência dos caminhos que quer ver trilhados pela sua obra.

Neste novo livro, a autora volta a usar, como base da sua poesia, os seus valores morais, a sua experiência de vida, as suas dúvidas e certezas, os seus medos e ânsias, sem cair na tentação do discurso repetitivo; tantas vezes prejudicial aos criadores. Em cada um dos poemas é-nos dado observar os pensamentos que a habitam e são, no essencial, a sua realidade.

Quem acompanha a poesia de ANA CASANOVA, reconhece em NÓS ETERNOS, os traços fundamentais que caracterizam tanto a obra como a autora. Numa poesia curta e acessível mas sem o uso de formas simplistas ou desprovidas de sentido, encontramos a génese da autora, mulher, filha, mãe e amante, como se cada poema fosse uma peça de puzzle e o livro uma imagem, que nos oferece, de si própria. Assim, temos o discurso da poetisa segura e determinada, vemos a mulher sonhadora que tenta dismistificar utopias e com perseverança vai à conquista dos sonhos, temos as palavras da filha devota e agradecida, os conselhos da mãe babada e interessada e encontramos os desejos e a paixão da amante.

Aqui chegados, creio que seria despropositado e enfadonho desconstruir cada uma destas cinco personagens reais que caracterizam a poetisa, contudo, penso que vale a pena centrarmos as nossas atenções numa das vertentes: a mãe. Mais não seja, porque sei, com conhecimento de causa, da paixão e orgulho que, ANA CASANOVA, sente pelos seus dois filhos; CÉSAR e GONÇALO.

Posso afirmar, sem correr o risco de me enganar, que ambos são a razão primeira e grande fonte da sua inspiração. A provar o que acabei de dizer está o facto de, pela terceira vez (ou seja, em todos os livros), as ilustrações serem da autoria do CÉSAR, e de no passado dia 24 de Setembro, termos ouvido o pequeno GONÇALO dizer um dos poemas deste livro. Um belo momento que ficará na memória de todos os que assistiram e gravado a letras de ouro no coração da ANA CASANOVA, que viu assim um dos seus sonhos transformar-se em realidade. Ou como a própria diz num dos poemas do seu primeiro livro:

Deixem-me sonhar,

sonhar acordada

de olhos abertos,

sonhar que é verdade,

Tudo o que é mentira.

 

Deixem-me viver

o meu sonho acordada

deixem-me sonhar

que tudo é possível!

 

Abençoados sejam os sonhos que se tornam realidade!

 

Não quero terminar sem fazer referência ao titulo que acho, sem sombra de dúvida, o que melhor define o teor da mensagem transmitida pela poetisa. No fundo, e para quem ler com atenção, cada poema não é mais que um elo de ligação entre a autora e aqueles que lhe estão mais próximos (leitores incluídos).

Espero sinceramente que as minhas palavras nesta apresentação, mais que esclarecedoras do conteúdo deste NÓS ETERNOS, sejam catalizadoras da curiosidade dos leitores como se de um aperitivo se tratassem e que cada um encontre, não só neste livro mas também nos dois anteriores (DESABAFOS D’ALMA e DIALECTOS DA MEMÓRIA), os laços que vos une à autora.

Para finalizar, quero dizer que é para mim um orgulho e um tremendo privilégio ter no meu currículo esta apresentação, ainda para mais sendo longe do nosso circulo habitual mas bem dentro do sentimento de portugalidade.

Geneve, 8 de Outubro, 2011

 

 

 

 


24
Jan 13

 

Em primeiro lugar, cabe-me a mim felicitar a autora por este seu mais recente trabalho poético e julgo estar a falar em nome de muitos mais se disser: Até qu’enfim, Vera! Durante mais de três anos fomos privados da leitura dos teus poemas e isso não se faz! Ninguém, com a qualidade criativa que possuis, pode estar tanto tempo sem editar!

 

Em segundo lugar, quero aproveitar para agradecer e parabenizar a editora Lua de Marfim pela aposta na publicação deste livro em particular e também pela forma como tem dado alguma visibilidade a autores que de outro modo dificilmente a teriam.

 

Feitas estas introduções que se exigiam, concentremo-nos então na razão principal da nossa presença neste lugar; a poesia de Vera Sousa Silva.

 

Por experiência acumulada, sei que qualquer apresentação de um livro, exige algum trabalho de pesquisa, não só da obra em questão mas também e fundamentalmente do percurso literário e/ou criativo dos autores. Por si só, esta tarefa revela-se, não poucas vezes, árdua e difícil independentemente do nosso conhecimento, mais ou menos profundo, de quem estamos a apresentar e da sua escrita.

 

Posto isto, é de todo adequado e nada fora de propósito ou contexto dizer que, sobre os ombros de quem apresenta, recaí a grande responsabilidade de provocar interesse na obra juntos dos possíveis leitores. Mais ainda se ao apresentador tiver sido pedido também a elaboração do prefácio do livro. É este o caso.

 

Perante este facto incontornável, convém dizer que, para além do aumento substancial da responsabilidade que me foi delegada pela autora, vi-me confrontado com o enorme desafio de tentar, como apresentador, não fazer colidir o meu discurso com o texto que fiz enquanto prefaciador. Seria demasiado fácil e redutor chegar aqui e limitar-me a ler as palavras que escrevi e que estão no livro. No entanto, creio que tal feito não acrescentaria nada de novo e, possívelmente, empobreceria este evento. Tanto a autora como todos os presentes merecem bem mais que isso.

 

Assim sendo, não me resta outra alternativa que não seja falar-vos mais detalhadamente de alguns aspectos desta obra que requerem atenção rebobrada por parte de quem a ler.

 

Numa primeira análise, e se tivermos em consideração o seu anterior trabalho de poesia, constatamos que existe uma linha de continuidade bem vincada no que diz respeito à temática central; o amor. Contudo, atrevo-me a dizer que apesar da coerência demonstrada pela autora, este BIPOLARIDADES é revestido de muito mais erotismo primário, puro e duro, enquanto que AMAR-TE EM SILÊNCIO, embora longe de ser “platónico”, era de uma sensualidade mais tímida ou comedida. De um modo mais figurativo direi que o livro anterior era mais “pele” e este é mais “carnal”.

 

Continuando a fazer um paralelo entre os dois livros, verifica-se que Vera Sousa Silva, dá seguimento à tradição lírica da poesia feminina portuguesa, de um modo muito próprio, sem qualquer laivo de submissão nem, tampouco, extremismos exacerbados. O mesmo é dizer, que a autora, em ambas as obras, dá voz ao que de mais importante existe na essência da mulher enquanto ser pensante ou por vezes irracional, cheia de dúvidas e algumas certezas e consciente dos sentimentos que a habitam, quer a atormentem ou glorifiquem. É através desta dualidade ou confronto de opostos que, já em 2009, um tal Paulo Afonso Ramos, no prefácio ao livro AMAR-TE EM SILÊNCIO, escrevia e passo a citar:

 

“... o facto de o livro ser monotemático e ainda assim não ficar suspenso na amplitude e nas abordagens, dando-nos um vasto cenário, demonstrando que a poetisa é bipolar.” Fim de citação.

 

É interessante como à distância de três anos, quase como uma profecia, já se vislumbrava a aparição e abria caminho para este BIPOLARIDADES.

 

Para finalizar esta fase de comparações entre os dois últimos livros de poesia de Vera Sousa Silva, permitam-me dar-vos nota, em jeito de curiosidade, de um facto que chamou a minha atenção na leitura que fiz deste último livro e que me levou a reler o anterior. Tal como menciono no prefácio, existem dois substantivos que escasseiam nos poemas da autora. Digo escasseiam porque encontrei, num universo de 123 poemas, apenas oito referências ao substantivo “mulher” e uma ao substantivo “homem” (este aparece no AMAR-TE EM SILÊNCIO). Com este pequeno detalhe se prova a capacidade que a autora tem de nos sugestionar, sem fazer uso das palavras que identificam certas imagens que a sua poesia nos proporciona. E que imagens, senhores e senhoras!

 

Aqueles que acompanham com alguma regularidade a poesia de Vera Sousa Silva, não encontrarão nenhuma novidade nas minhas palavras quando falo da carga imagética que a sua escrita encerra. Esta característica muito particular na obra da poetisa é, em minha opinião, a sua marca registada, o que lhe confere um valor acrescentado sem, contudo, tirar mérito e importância aos aspectos criativos ou às mensagens transmitidas.  

 

Todos nós, em algum momento da vida, já lemos algo que, para além de nos obrigar à reflexão ou relembrar episódios da nossa própria existência, teve o condão de nos fazer imaginar cenários, personagens e visualizar situações que, em regra geral, estão fora do nosso ambiente natural. Também neste sentido, a poesia de Vera Sousa Silva, é sui generis e possuidora da tal bipolaridade, porquanto, não só consegue passar imagens através das suas palavras, como também nos faz sentir na pele, uma míriade de emoções, para as quais nem sempre nos encontramos totalmente preparados.

 

Ao longo de todo este livro, a autora faz-nos viajar nos seus poemas e enquanto deambulamos entre versos vamos adquirindo alguns estados de espírito sem que de tal nos apercebamos. Na verdade, só damos conta desse fenómeno quando somos confrontados com a antítese do que estamos a sentir no momento. Alheio a esta característica, impossível de ignorar, não está o facto de a maioria dos poemas aqui incluídos terem o amor como tema central e, por essa razão, estarem distribuídos em sequências mais alongadas o que provoca no leitor alguma ligeireza de sentimentos que se transforma em autêntico choque quando, surgido do nada e sem aviso prévio, aparece um poema que faz ruir toda a tranquilidade de forma cruel, direi mesmo, violenta.

 

E esta situação ocorre porque estamos perante uma autora que sabe utilizar como ninguém o seu estatuto de criativa para fazer despertar as consciências e abrir os olhos de muita gente para algumas situações de índole social que infelizmente e apesar da carga negativa que as envolve, ainda grassam nas sociedades actuais. Falo de questões como a prostituição, violência doméstica e social e toxicodependência.

 

Tanto à autora como ao editor, seria talvez demasiado fácil e tentador dividir este livro em três ou quatro partes distintas e deste modo suavizar emoções ou agrupá-las em secções particulares, no entanto, creio que a fórmula encontrada para a disposição dos poemas no livro é a mais acertada, levando em linha de conta que desta forma o conceito de bipolaridade fica mais visível e consentâneo com o que se pode observar na vida quotidiana de todos nós, uma vez que o normal é sermos invadidos pelos sentimentos de modo aleatório e alternado, com constantes variações de humor, não poucas vezes, vertiginosas.

 

Assim sendo, podem os leitores deste livro ter a certeza que embarcarão numa viagem alucinante, qual montanha russa, através das sensações provocadas pelas palavras da poetisa e simultaneamente usufruir da possibilidade de descobrirem as suas próprias sensibilidades bipolares. Arriscarei mesmo dizer que, serão raros os que não se surpreenderão pelas descobertas que fizerem.

 

Para terminar esta minha dissertação, que já vai longa, gostaria de chamar a vossa atenção para a capa deslumbrante que, para além de bela, consegue resumir na perfeição o conteúdo do livro como se de um espelho se tratasse. Nela está reproduzida a diversidade temática dos poemas que são a bipolaridade suprema da autora e que, estou certo, no compto geral, vai agradar a cada um dos seus leitores.

 

Boas leituras.

 

Lisboa, 30 de Junho, 2012

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por manu às 09:34

23
Jan 13

SOBRE: UM CADERNO DE CAPA VERDE

Tenho uma forma muito própria de ler poesia que consiste em fazer uma primeira leitura rápida, quase de fôlego, e deixar que o cérebro apreenda alguns pormenores que, numa segunda leitura, me ajudarão a decifrar as mensagens dos poetas.

Após a primeira leitura de UM CADERNO DE CAPA VERDE, surgiu-me à memória uma frase que me foi dita, há muito tempo atrás, por um professor de antropologia: "para se entender uma cultura que nos é estranha, temos de nos abstrair de tudo aquilo que aprendemos durante a nossa aculturação."

Assim, vazio de ideias, conceitos e, até mesmo, preconceitos, dediquei a minha atenção à poesia deste livro e, verdade seja dita, o conselho do professor faz todo o sentido e resulta.

Seguindo este método, encontro logo no primeiro poema uma alusão a algo que, não sendo tão cristalino na primeira leitura, nada mais é que a constatação de uma verdade universal; cada leitor tem o seu próprio modo de ler e interpretar as palavras que o poeta escreve, não sendo certo que algum dos leitores o faça em sintonia com as verdadeiras intenções do poeta. Como autor, sei e subscrevo por inteiro este conceito.

Sem pretender fazer uma análise, poema por poema, o que se revelaria monótono e fora de propósito, mais não seja porque não sou, nem pretendo ser, crítico literário, gostaria de destacar também o segundo poema pela importância que terá no desenvolvimento de todo o corpo poético deste livro. Neste texto, o autor expõe-se perante o leitor como sendo um poeta-filósofo (aquele que sempre tem uma pergunta para cada resposta que encontra ou descobre), e simultâneamente um poeta-objecto (aquele que é instrumento da escrita e/ou escravo da palavra).

A pergunta que faço após a leitura dos dois primeiros poemas é a seguinte: É possível a convivência entre os dois seres poetas (poeta-filósofo, poeta-objecto) sem que a mensagem sofra mais influência de um em prejuízo do outro? No segundo poema esta simbiose parece funcionar e cada um dos seres poéticos pode ser identificado por uma palavra-chave.

Poeta-filósofo = branca/o

Poeta-objecto = palavra 

Assim temos o poeta-filósofo que anuncia o seu propósito «a minha vontade/ é branca antes da palavra escrita» e logo descobre a presença do poeta-objecto «(experiência de espanto)»

Embora o poeta-filósofo possa ser mais facilmente identificável existe uma pista importante para se reconhecer onde e quando o poeta-objecto aparece nos textos: os versos deslocados. Como que impelido pela força e desejos supremos das palavras, o poeta é "obrigado" a colocar as palavras onde elas querem ser colocadas. Afinal, em frente ao poeta está uma folha branca e as palavras escolhem o espaço que querem ocupar.

Avançando na leitura do livro, deparamos com as questões do poeta-filósofo derivadas da relação entre palavra e silêncio (não palavra) o que nos abre novas pistas para o que nos espera mais adiante, uma vez que a palavra é unidade imutável e imprescíndivel do livro e o silêncio (não palavra) nos é transmitido fazendo alusão a outra formas de arte para além da escrita; música, pintura, escultura e desporto.

Outro dos aspectos interessantes das reflexões do poeta-filósofo reside na utilização dos opostos. Tal como opõe palavra/silêncio(não palavra) também o faz com: vida/morte, sonho/entresonho, realidade/irrealidade, homem/natureza, entre outros.

No fundo, e numa análise geral e abrangente a todo o corpo poético deste livro, concluo que a existência simultânea entre o poeta-filósofo e o poeta-objecto não só é possível como é utilizada com mestria sendo que a junção dos dois revela-nos um terceiro ser poético: o poeta-artista (aquele que fazendo uso do conhecimento dos dois outros transforma a escrita numa arte maior).

Resumidamente, UM CADERNO DE CAPA VERDE é um livro em que o autor faz uso dos seus alter-egos (poeta-filósofo, poeta-objecto e poeta-artista) para através da escrita fazer arte tendo como denominador comum a palavra e todas as possibilidades que esta proporciona.

EMANUEL LOMELINO

CAMARATE, 17 Janeiro 2013

 

 

 

 

publicado por manu às 08:43

22
Jan 13


APRESENTAÇÃO DO LIVRO "ENCONTRO-ME NAS PALAVRAS" DE MARIA ANTONIETA OLIVEIRA

Normalmente e por experiência acumulada, quando me convidam para fazer a apresentação de um livro, tenho o hábito de, ao ler a obra, tentar encontrar os pontos de contacto entre o autor e a pessoa que lhe empresta o corpo.

E faço-o porque aqueles que escrevem raramente conseguem evitar que os seus textos sejam uma extensão de si próprios e como, em regra geral, conheço a pessoa por trás do autor, torna-se mais fácil para mim fazer uma análise global da obra, entender os discursos e o alcance das suas palavras.

Portanto, não é de estranhar que tenha procurado neste ENCONTRO-ME NAS PALAVRAS um pouco da Maria Antonieta, que conheço para lá da poesia.

No entanto, e apesar de ter detectado os pontos convergentes, fui confrontado com alguns aspectos que me obrigaram a um esforço extra de pesquisa, não só nesta obra, mas também no anterior trabalho da poetisa.

Se no seu livro de estreia, GALERIA DE AFECTOS, a autora nos presenteou com textos que escreveu ao longo da vida, isto é, seleccionou alguns poemas dos muitos que foi escrevendo quando ainda nem sonhava editar; neste novo trabalho já nos apresenta uma linha poética mais pensada sendo evidente o cuidado que emprestou na criação de cada um dos poemas que compõem este ENCONTRO-ME NAS PALAVRAS.

Numa primeira análise, o meu comentário anterior, onde faço a comparação entre os dois livros, pode indiciar uma mudança radical na forma de escrever da autora. Nada mais errado.

Desenganem-se aqueles que pensam poder vir encontrar neste novo livro grandes alterações estilísticas, temáticas ou uma transformação substancial na poética da Maria Antonieta. 

Como muito bem refere a prefaciadora desta obra, estamos na presença de uma poetisa que apesar de ser multifacetada vai demonstrar sempre um grande espírito de entrega em cada uma das suas criações e nunca se sentirá satisfeita com o resultado final de cada poema.

Talvez por isso não seja de estranhar o facto de alguns temas abordados no primeiro livro ganharem uma nova dimensão e tratamento, quiçá uma outra roupagem, neste mais recente trabalho.

Dou-vos como exemplo do que digo o poema “Em tudo te encontro” que, na minha modesta forma de ver, nada mais é do que a continuidade, ou até mesmo, o melhoramento do poema “Querer”, que aparece no primeiro livro.

Ao fazer a comparação entre estes dois poemas podemos verificar a existência da insatisfação atrás mencionada e a tentativa de aproximar o resultado final da perfeição.

Quanto a mim, este acto de reescrever ou criar novas versões dos poemas é um sinal claro e evidente da evolução da autora e revela o grau de consciência e maturidade que o tempo lhe outorgou.

Através destes dois poemas, mas não só, também é possível confirmar a ligação quase umbilical da autora às temáticas associadas aos sentimentos humanos e à natureza.

Aliás, uma das principais características da poesia da Maria Antonieta é precisamente a utilização de elementos da natureza para exprimir sentimentos.

Por outro lado, mas de forma mais vincada neste ENCONTRO-ME NAS PALAVRAS, esses elementos da natureza são acessórios fundamentais na demonstração de sentir poético chegando por vezes a aparecer em substituição dos próprios sentimentos.

Encontramos com alguma frequência o elemento àgua associado à vida e ao amor e o deserto como indicador de distância e saudade.

Baseando-nos neste aspecto da escrita da Maria Antonieta, poder-se-á dizer que estamos perante uma poesia com enorme carga imagética.

Tal como diz Natália Canais Nuno no prefácio deste livro, Maria Antonieta é uma poetisa que tanto nos dá poemas de exortação à vida como nos presenteia com textos sofridos e até mesmo dolorosos.

Aqui chegados, convém dizer que esta dualidade temática é outra das marcas características da poesia da Maria Antonieta.

Num momento é-nos dado um poema exultante, alegre e apaixonado para no instante seguinte nos depararmos com um poema chorado, triste e magoado.

Atrevo-me mesmo a dizer que a poetisa, no seu exercício de escrita, tenta dar-nos as duas faces da mesma moeda não se refugiando apenas num dos lados da vida, tomando partido em detrimento do outro, e deste modo dá a cada um dos seus poemas um cunho de humanidade.

Bem vistas as coisas, todos nós vivemos momentos bons e maus, rejubilamos com os encontros e sofremos com as partidas, rimos das alegrias e choramos das tristezas, enfim, somos humanos e vivemos de opostos.

Posto isto, e sem correr o risco de cair em frases feitas circunstanciais, que a minha amizade com a autora poderia proporcionar, posso dizer que estamos na presença de uma poetisa com elevado sentido poético, ciente dos passos que quer dar na contrução da sua obra e com perfeita noção que por mais poemas que escreva existe sempre a possibilidade de melhorar e crescer.

Para finalizar, quero agradecer à editora Temas Originais por permitir que nós leitores possamos continuar a usufruir das palavras desta autora.

Os meus parabéns à poetisa Natália Canais Nuno, pelo belíssimo e assertivo prefácio com que nos brinda.

Agradeço também à autora o convite que me fez para estar aqui a apresentar este livro e a confiança que depositou em mim para esta tarefa.

Por fim, os meus parabéns à amiga Maria Antonieta pelo nascimento de mais este “filho” e o desejo que continue a partilhar connosco através das “galerias de afectos” os seus “sentires vividos e sonhados” e juntos possamos sempre “encontrar-nos nas palavras”.

Lisboa, 24 de Março, 2012

    

 


Depois de algum (bastante) tempo afastado deste blogue - por um infindável número de motivos - eis mais uma tentativa de reactivá-lo e continuar com o propósito que lhe deu vida. Chamar-lhe-ei um regresso às origens e pretendo que desta vez seja para durar (assim as circunstâncias o permitam).

Em breve colocarei aqui alguns textos - dissertações -  sobre livros, de outros autores, que apresentei e li.

publicado por manu às 07:46

01
Dez 11

Como o prometido é devido, aqui estou eu de volta com as minhas sugestões de leitura!

 

Desta vez tenho para vos propôr três livros que, mesmo fazendo parte de uma tetralogia, podem muito bem ser lidos individualmente que não se corre o risco de perder o fio à meada. Falo-vos de ASCENÇÃO E QUEDA, CONFLITO E RETALIAÇÃO e PENA OU DESTINO da autora MARIA FÁTIMA SOARES.

 

Sem entrar em muitos detalhes/revelações, para não retirar o interesse na leitura destes livros, posso dizer-vos que em cada um destes volumes da colecção REDENÇÃO vão encontrar motivos mais que suficientes para ficarem agarrados à história de Andreia - uma jovem estudante com uma vida tranquila que se vê envolvida numa série de situações que colocarão em risco não só a sua sobrevivência como a dos que a rodeiam. Na eterna batalha entre o bem e o mal, travam-se combates de ideias, criam-se inimigos, geram-se afectos improváveis, questionam-se decisões, fazem-se descobertas assombrosas e inquietantes.

Numa escrita simples, acessível mas muito cuidada a autora, MARIA FÁTIMA SOARES, consegue proporcionar-nos uma leitura fácil ao mesmo tempo que nos faz entrar na história de forma envolvente. Cada um destes livros tem o grande mérito de nos prender o interesse e cada final de capítulo é um adoçar de boca para o próximo. Fica aqui o aviso: depois de iniciarem a leitura é muito difícil interrompê-la!

 

Para finalizar quero apenas dizer que depois de ter lido estes três volumes fiquei ainda com mais curiosidade em saber como vai terminar esta tetralogia!!! Venha daí o quarto volume CERCADA.

 

Podem saber mais destes livros e da autora em http://omeueudepapel.blogs.sapo.pt/

 

MANU DIXIT   

  

publicado por manu às 20:25

14
Out 11

A todos os amigos e amigas deste blogue:

Ao fim de, praticamente, um ano de muita dedicação e trabalho eis a hora de trazer a público a razão maior da minha ausência dos blogues.

 

 

O autor EMANUEL LOMELINO e a editora LUA DE MARFIM, têm o grato prazer de os convidar para a sessão de lançamento do livro LICENÇA POÉTICA [duetos lomelinos].

O evento terá lugar no próximo dia 22 de Outubro, às 19 horas, no Auditório do Campo Grande, 56, em Lisboa.

Obra e autor serão apresentados por José Luís Outono

Este evento contará com a actuação da banda Smente.

 

 

 

 


12
Dez 10

 

Muito boa tarde. Antes de mais, devo agradecer a vossa presença neste fim de tarde de sábado.

 

Seguindo a lição utilizada no seu primeiro livro, o poema iniciador da obra titula-a, isto é: ao "Amador do Verso", onde se lê, e cito:

 

a poesia não traio, sempre lhe fui fiel

palavra de aprendiz de poeta

 

curiosa esta referência, aprendiz de poeta, adiante,

 

sucede este "Aprendiz de Poeta" que, considero, embora saiba que a minha palavra será sempre suspeita, porque também sou o editor, um pulo bem acentuado no que o Emanuel Lomelino faz chegar ao leitor sob a forma do livro.

 

São dois, bem sei, mas é, na minha opinião, algo a considerar.

 

Digo-o porque, no seu primeiro livro, notava-se já a verdadeira semente de toda a escritura, isto é; a leitura; mas, também, já era notória uma demanda de um registro próprio.

 

Existia o amador, o que ama a coisa, mas desta não se afastava o suficiente para colher a essência da sua própria respiração. O acto amatório muitas vezes provoca uma proximidade que, quase diria, sufoca, mesmo que essa sensação seja agradável.

 

No entanto, nesta sua nova obra, "Aprendiz de Poeta", há uma novidade, um registro, de facto, próprio, autêntico, verdadeiro, porque do próprio autor, que sabe, porque desta toma, não sensível, mas conscientemente, que é a leitura a geradora da obra a ser.

 

Desta forma, não será de admirar que continue a escutar, como mero exemplo, António Cândido Franco, sobretudo o de "Moradas", ou de uma forma mais abrangente, Ruy Belo pela forma coloquial que amiúde contamina o seu fazer poético.

 

Mas não encontro aqui o que afirma o próprio poeta, e cito: "poeta imaturo"; a não ser que este imaturo signifique, e aí concordo, como aquele que sempre encontra na coisa o catalisador do próprio espanto e, por isso, se sente sempre perante a novidade, e, assim, matura constantemente essa mesma coisa com o intuito de obter desta a maior valoração possível.

 

Aí ambos, melhor, todos os que escrevem estão, como se soía dizer, no mesmo barco, navegando, tal como afirma Emanuel Lomelino, "um rio/ (...) agarrado às suas crinas", imagem esta de força vital porque nos traz uma espécie de serena liberdade.

 

Um detalhe relevante, que já era também vislumbrável na sua primeira obra, é, tal como indiciam os ecos poéticos acima referidos, sobretudo Ruy Belo, o alongar do verso, quase sempre superior ao decassilabo.

 

Neste "Aprendiz de Poeta" há a aproximação ao apuro técnico de construção deste género de mesura vérsica, onde a censura se encontra cada vez mais no local devido, ou não fosse aprendiz, aquele que inicia o processo de recolha e interiorização dos rudimentos do seu ofício, no âmago do que escreve, melhor do que diz.

 

Trata-se portanto, na minha opinião, já não só da tal procura de registro pessoal, que antes referi, mas de uma demanda para que esse mesmo registro seja cada vez mais construído de forma a que chegue ao outro com uma maior eficácia ou, como refere o poeta, que nisto o poeta é que sabe, e pode clarificar, e cito:

 

Escrevo por não poder falar

Todas as palavras que quero

 

isto é, tendo consciência de que o acto poético é essencialmente fala, voz, e sobretudo canto, assume-se aqui como o tal aprendiz.

 

É, sem dúvida, um título que assenta, tal como refere o povo, como uma luva.

 

Numa abordagem ligeira a esta obra, muito provavelmente, dir-se-á: essencialmente lírica. Se é um facto que o Eu está, quase direi, omnipresente, também é verdade que esse Eu, por vezes, muitas vezes, se vê, como se se projectasse no mundo e representasse um outro papel, ou, mais concretamente, um papel outro, um papel produzido pela imaginação, ou seja, transfigurando o Eu lírico num Tu dramático, que leva o poeta a dizer, e cito:

 

Por vezes nem eu me reconheço

 

(...)

 

Afasto-me do mundo conhecido

 

Mas a questão fulcral é a seguinte: que papel procura desempenhar o aprendiz, por que demanda entre palavras fundadas no Eu, mas que é no Eu Outro que se revela em cada verso?

 

Bom, para que não seja suspeito, citarei Vitorino Nemésio quando este escreve, e cito:

 

Como em toda a actividade, é difícil surpreender exactamente o grau de expressão em que a categoria do poético desfalece ou está ausente sem que desapareçam os requisitos formais da arte poética em acção. Sobre o que define o poético, frente ao metafísico, estamos todavia mais seguros. Se o pensamento filosófico apreende a realidade na relação do juízo, o que se pode chamar de pensamento poético indica-a ou mostra-a pela mediação de uma realidade segunda, substitutiva ou simbólica, que a razão não traduz absolutamente nos seus termos, mas que verbalmente é dada com a plenitude da intuição.

 

Fim de citação.

 

É neste plano que leio esta obra e, sobretudo, o futuro da obra do Emanuel Lomelino. Ou não fosse, e cito o poeta:

 

A poesia

 

(...)

 

A minha tábua de salvação

 

E que outra salvação há senão a da reconstrução do nosso próprio mundo, desta feita reconstruída pela via, tal como alúde Nemésio, segunda, substitutiva ou simbólica, tal como considero ser regida a escrita de Emanuel Lomelino, antes, agora e sempre, amador do verso, e aprendiz, porque peregrino pelos caminhos da palavra, da poesia.

 

Gostei de te reler.

 

Obrigado a todos, e votos de boa leitura.

 


08
Dez 10

Para quem puder e quiser aparecer aqui ficam os convites para uma grande tarde de poesia:

 

 

O autor EMANUEL LOMELINO e a Temas Originais têm o prazer de o(a) convidar a estar presente na sessão de lançamento do livro de poesia APRENDIZ DE POETA, a ter lugar no Auditório do Campo Grande, 56, em Lisboa, no próximo Sábado dia 11 de Dezembro, pelas 16 horas.

 

Obra e autor serão apresentados pelo poeta XAVIER ZARCO

 

 

E também a não perder, logo a seguir:

 

A autora MANUELA FONSECA e a Temas Originais têm o prazer de o(a) convidar a estar presente na sessão de lançamento do livro POESIA SEM REMETENTE, a ter lugar no Auditório do Campo Grande, 56, em Lisboa, no próximo Sábado dia 11 de Dezembro, pelas 19.00

 

Obra e autora serão apresentados pelo poeta ANTÓNIO MR MARTINS 


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Parabéns ao apresentador e à autora!Bjo!
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Que surpresa!!!!Beijocas
E dia 22 lá estarei muito, muito orgulhosa :)Beijo
Meu querido amigo venho desejar um excelente 2011 ...
Gostei muito da apresentação que o Xavier fez do t...
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