Aqui vai-se falar da cultura em geral De música e literatura em particular

24
Jan 13

 

Em primeiro lugar, cabe-me a mim felicitar a autora por este seu mais recente trabalho poético e julgo estar a falar em nome de muitos mais se disser: Até qu’enfim, Vera! Durante mais de três anos fomos privados da leitura dos teus poemas e isso não se faz! Ninguém, com a qualidade criativa que possuis, pode estar tanto tempo sem editar!

 

Em segundo lugar, quero aproveitar para agradecer e parabenizar a editora Lua de Marfim pela aposta na publicação deste livro em particular e também pela forma como tem dado alguma visibilidade a autores que de outro modo dificilmente a teriam.

 

Feitas estas introduções que se exigiam, concentremo-nos então na razão principal da nossa presença neste lugar; a poesia de Vera Sousa Silva.

 

Por experiência acumulada, sei que qualquer apresentação de um livro, exige algum trabalho de pesquisa, não só da obra em questão mas também e fundamentalmente do percurso literário e/ou criativo dos autores. Por si só, esta tarefa revela-se, não poucas vezes, árdua e difícil independentemente do nosso conhecimento, mais ou menos profundo, de quem estamos a apresentar e da sua escrita.

 

Posto isto, é de todo adequado e nada fora de propósito ou contexto dizer que, sobre os ombros de quem apresenta, recaí a grande responsabilidade de provocar interesse na obra juntos dos possíveis leitores. Mais ainda se ao apresentador tiver sido pedido também a elaboração do prefácio do livro. É este o caso.

 

Perante este facto incontornável, convém dizer que, para além do aumento substancial da responsabilidade que me foi delegada pela autora, vi-me confrontado com o enorme desafio de tentar, como apresentador, não fazer colidir o meu discurso com o texto que fiz enquanto prefaciador. Seria demasiado fácil e redutor chegar aqui e limitar-me a ler as palavras que escrevi e que estão no livro. No entanto, creio que tal feito não acrescentaria nada de novo e, possívelmente, empobreceria este evento. Tanto a autora como todos os presentes merecem bem mais que isso.

 

Assim sendo, não me resta outra alternativa que não seja falar-vos mais detalhadamente de alguns aspectos desta obra que requerem atenção rebobrada por parte de quem a ler.

 

Numa primeira análise, e se tivermos em consideração o seu anterior trabalho de poesia, constatamos que existe uma linha de continuidade bem vincada no que diz respeito à temática central; o amor. Contudo, atrevo-me a dizer que apesar da coerência demonstrada pela autora, este BIPOLARIDADES é revestido de muito mais erotismo primário, puro e duro, enquanto que AMAR-TE EM SILÊNCIO, embora longe de ser “platónico”, era de uma sensualidade mais tímida ou comedida. De um modo mais figurativo direi que o livro anterior era mais “pele” e este é mais “carnal”.

 

Continuando a fazer um paralelo entre os dois livros, verifica-se que Vera Sousa Silva, dá seguimento à tradição lírica da poesia feminina portuguesa, de um modo muito próprio, sem qualquer laivo de submissão nem, tampouco, extremismos exacerbados. O mesmo é dizer, que a autora, em ambas as obras, dá voz ao que de mais importante existe na essência da mulher enquanto ser pensante ou por vezes irracional, cheia de dúvidas e algumas certezas e consciente dos sentimentos que a habitam, quer a atormentem ou glorifiquem. É através desta dualidade ou confronto de opostos que, já em 2009, um tal Paulo Afonso Ramos, no prefácio ao livro AMAR-TE EM SILÊNCIO, escrevia e passo a citar:

 

“... o facto de o livro ser monotemático e ainda assim não ficar suspenso na amplitude e nas abordagens, dando-nos um vasto cenário, demonstrando que a poetisa é bipolar.” Fim de citação.

 

É interessante como à distância de três anos, quase como uma profecia, já se vislumbrava a aparição e abria caminho para este BIPOLARIDADES.

 

Para finalizar esta fase de comparações entre os dois últimos livros de poesia de Vera Sousa Silva, permitam-me dar-vos nota, em jeito de curiosidade, de um facto que chamou a minha atenção na leitura que fiz deste último livro e que me levou a reler o anterior. Tal como menciono no prefácio, existem dois substantivos que escasseiam nos poemas da autora. Digo escasseiam porque encontrei, num universo de 123 poemas, apenas oito referências ao substantivo “mulher” e uma ao substantivo “homem” (este aparece no AMAR-TE EM SILÊNCIO). Com este pequeno detalhe se prova a capacidade que a autora tem de nos sugestionar, sem fazer uso das palavras que identificam certas imagens que a sua poesia nos proporciona. E que imagens, senhores e senhoras!

 

Aqueles que acompanham com alguma regularidade a poesia de Vera Sousa Silva, não encontrarão nenhuma novidade nas minhas palavras quando falo da carga imagética que a sua escrita encerra. Esta característica muito particular na obra da poetisa é, em minha opinião, a sua marca registada, o que lhe confere um valor acrescentado sem, contudo, tirar mérito e importância aos aspectos criativos ou às mensagens transmitidas.  

 

Todos nós, em algum momento da vida, já lemos algo que, para além de nos obrigar à reflexão ou relembrar episódios da nossa própria existência, teve o condão de nos fazer imaginar cenários, personagens e visualizar situações que, em regra geral, estão fora do nosso ambiente natural. Também neste sentido, a poesia de Vera Sousa Silva, é sui generis e possuidora da tal bipolaridade, porquanto, não só consegue passar imagens através das suas palavras, como também nos faz sentir na pele, uma míriade de emoções, para as quais nem sempre nos encontramos totalmente preparados.

 

Ao longo de todo este livro, a autora faz-nos viajar nos seus poemas e enquanto deambulamos entre versos vamos adquirindo alguns estados de espírito sem que de tal nos apercebamos. Na verdade, só damos conta desse fenómeno quando somos confrontados com a antítese do que estamos a sentir no momento. Alheio a esta característica, impossível de ignorar, não está o facto de a maioria dos poemas aqui incluídos terem o amor como tema central e, por essa razão, estarem distribuídos em sequências mais alongadas o que provoca no leitor alguma ligeireza de sentimentos que se transforma em autêntico choque quando, surgido do nada e sem aviso prévio, aparece um poema que faz ruir toda a tranquilidade de forma cruel, direi mesmo, violenta.

 

E esta situação ocorre porque estamos perante uma autora que sabe utilizar como ninguém o seu estatuto de criativa para fazer despertar as consciências e abrir os olhos de muita gente para algumas situações de índole social que infelizmente e apesar da carga negativa que as envolve, ainda grassam nas sociedades actuais. Falo de questões como a prostituição, violência doméstica e social e toxicodependência.

 

Tanto à autora como ao editor, seria talvez demasiado fácil e tentador dividir este livro em três ou quatro partes distintas e deste modo suavizar emoções ou agrupá-las em secções particulares, no entanto, creio que a fórmula encontrada para a disposição dos poemas no livro é a mais acertada, levando em linha de conta que desta forma o conceito de bipolaridade fica mais visível e consentâneo com o que se pode observar na vida quotidiana de todos nós, uma vez que o normal é sermos invadidos pelos sentimentos de modo aleatório e alternado, com constantes variações de humor, não poucas vezes, vertiginosas.

 

Assim sendo, podem os leitores deste livro ter a certeza que embarcarão numa viagem alucinante, qual montanha russa, através das sensações provocadas pelas palavras da poetisa e simultaneamente usufruir da possibilidade de descobrirem as suas próprias sensibilidades bipolares. Arriscarei mesmo dizer que, serão raros os que não se surpreenderão pelas descobertas que fizerem.

 

Para terminar esta minha dissertação, que já vai longa, gostaria de chamar a vossa atenção para a capa deslumbrante que, para além de bela, consegue resumir na perfeição o conteúdo do livro como se de um espelho se tratasse. Nela está reproduzida a diversidade temática dos poemas que são a bipolaridade suprema da autora e que, estou certo, no compto geral, vai agradar a cada um dos seus leitores.

 

Boas leituras.

 

Lisboa, 30 de Junho, 2012

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por manu às 09:34

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Parabéns ao apresentador e à autora!Bjo!
otimos comentarios de Simon Scarrow,
Que surpresa!!!!Beijocas
E dia 22 lá estarei muito, muito orgulhosa :)Beijo
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